DA ESTÉTICA AO SOFRIMENTO PSÍQUICO

A BANALIZAÇÃO DAS INTERVENÇÕES CORPORAIS NA ERA DAS REDES SOCIAIS

Autores

DOI:

https://doi.org/10.36557/2009-3578.2026v12n1p639-684

Palavras-chave:

Saúde mental, desinformação; redes sociais; saúde coletiva; políticas públicas; literacia em saúde., Medicina integrativa, Psiquiatria, Medicalização, Imagem corporal, Procedimentos estéticos, Psiquiatria social

Resumo

A crescente valorização da aparência física na contemporaneidade, intensificada pela expansão das redes sociais e pela cultura digital, tem contribuído para a consolidação de padrões estéticos idealizados e amplamente difundidos, influenciando significativamente a construção da autoimagem, da autoestima e dos processos de pertencimento social. Nesse contexto, observa-se a progressiva banalização das intervenções estéticas, associada à naturalização de procedimentos corporais, ao uso crescente de recursos farmacológicos voltados à modificação da aparência e à ampliação dos mecanismos de validação social mediados por plataformas digitais. O presente estudo tem como objetivo analisar criticamente as consequências psicopatológicas da banalização estética na sociedade contemporânea, discutindo suas relações com a medicalização da aparência, os processos de comparação social, a influência das redes sociais e os impactos sobre a saúde mental. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura fundamentada em referenciais da psiquiatria social, psicologia social, sociologia do corpo e medicina estética. A análise dos estudos evidencia que a exposição contínua a padrões corporais idealizados favorece o desenvolvimento de insatisfação corporal, fragilidade da autoestima, dependência de validação externa, hipervigilância da aparência e maior vulnerabilidade a transtornos relacionados à imagem corporal, incluindo o transtorno dismórfico corporal, transtornos alimentares, sintomas ansiosos e depressivos. Ademais, observa-se que a crescente popularização de procedimentos estéticos minimamente invasivos, preenchimentos dérmicos, toxina botulínica e agonistas dos receptores GLP-1/GIP-GLP-1 ultrapassa, em muitos casos, finalidades estritamente terapêuticas, passando a integrar dinâmicas socioculturais relacionadas ao reconhecimento simbólico, à aceitação social e à busca por adequação estética. Conclui-se que a banalização da estética constitui fenômeno complexo e multifatorial, capaz de repercutir significativamente sobre a saúde mental individual e coletiva, exigindo abordagens interdisciplinares que integrem aspectos biológicos, psicológicos, sociais e culturais na compreensão contemporânea da relação entre corpo, identidade e sofrimento psíquico.

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Publicado

2026-06-08

Como Citar

Her, W. S., & Alves Menezes, F. J. (2026). DA ESTÉTICA AO SOFRIMENTO PSÍQUICO: A BANALIZAÇÃO DAS INTERVENÇÕES CORPORAIS NA ERA DAS REDES SOCIAIS. INTERFERENCE: A JOURNAL OF AUDIO CULTURE, 12(1), 639–684. https://doi.org/10.36557/2009-3578.2026v12n1p639-684

Edição

Seção

Revisão de Literatura